Seminário em Brasília reúne MPF para debater Lei Antifacção e combate ao crime organizado

Por em Brasília, DF

Pessoas em traje formal participam num evento num auditório espaçoso, dispostas em mesas cobertas com toalhas pretas viradas para uma mesa principal com bandeiras e um ecrã de projeção ao fundo.

Evento na PGR discutiu a implementação da Lei nº 15.358/26 e o fortalecimento do Gaeco Nacional.

Cerca de 60 procuradores do Ministério Público Federal participaram, nesta quinta-feira (26), do seminário “Lei Antifacção e os Novos Instrumentos de Combate ao Crime Organizado”, na sede da Procuradoria-Geral da República, em Brasília (DF). O encontro reuniu debates sobre as inovações trazidas pela Lei nº 15.358/26, voltadas ao fortalecimento da persecução penal e do enfrentamento qualificado das organizações criminosas.

Gaeco Nacional e prioridade institucional

Na mesa de abertura, o vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand, destacou o fortalecimento da estrutura institucional do MPF com a criação do Grupo Nacional de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco Nacional), em fevereiro de 2025. Segundo ele, a estruturação é relevante diante da permanência e complexidade de determinados fenômenos criminais.

Chateaubriand também apontou a necessidade de atuação conjunta entre países no enfrentamento de organizações criminosas. “A cooperação internacional é fundamental, pois não há combate eficiente a organizações criminosas sem ela”. Ele mencionou ainda parcerias com países da União Europeia por meio de equipes conjuntas de investigação.

Resultados e reestruturação do sistema Gaeco

Coordenador do Gaeco Nacional, o subprocurador-geral da República José Adonis Callou de Araújo Sá apresentou um panorama dos primeiros 12 meses de funcionamento da unidade. Conforme o material, foram seis operações de grande porte, enquanto 24 investigações seguem em curso no âmbito do Gaeco Nacional.

O coordenador também citou resultados de 2025, com R$ 28 bilhões em pedidos de bloqueio patrimonial, 60 operações deflagradas, 126 prisões efetuadas e 126 denúncias contra 929 pessoas apresentadas à Justiça Federal. O balanço do ano foi encerrado com mais de 400 investigações em andamento contra o crime organizado.

Para expandir o trabalho, José Adonis mencionou a reestruturação dos Gaecos com a criação de oito núcleos regionalizados, sediados em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte, Belém e Salvador. Segundo ele, os Gaecos Regionais reúnem 118 ofícios especiais, somados aos 15 ofícios do Gaeco Nacional, formando o Sistema Gaeco MPF.

Na avaliação do coordenador, a nova estrutura reflete a prioridade institucional do tema. “Teremos 133 membros do MPF dedicados exclusivamente ao combate ao crime organizado, representando cerca de 12% do quadro da instituição”, destacou, acrescentando que “o seminário visa iluminar a compreensão de todos sobre as disposições da nova Lei Antifacção, permitindo o desenvolvimento cada vez mais qualificado do nosso trabalho”.

Alinhamento e aplicação da lei

A coordenadora da Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural do MPF, subprocuradora-geral da República Luiza Frischeisen, defendeu alinhamento prático e aprofundamento técnico para a aplicação da Lei Antifacção. “A nova norma exige definições claras sobre como o MPF utilizará os novos mecanismos operacionais, uma vez que houve uma verdadeira reforma do processo penal. Precisamos conhecer essa lei profundamente para que possamos usá-la como um bom instrumento”, afirmou.

Frischeisen também relacionou a pauta ambiental ao combate a organizações criminosas, destacando que grande parte da matéria criminal da 4CCR, especialmente na Região Norte, está ligada à presença de facções e organizações criminosas em áreas de terras indígenas, quilombolas e populações ribeirinhas, com uso dos rios para tráfico de armas e drogas.

Representando a Câmara Criminal do MPF, a subprocuradora-geral da República Mônica Campos de Ré reforçou a importância do diálogo para adequar a atuação institucional às mudanças da nova legislação, citando adaptação a prazos, adequação aos instrumentos processuais criados e análise dos novos tipos penais.

Já o coordenador da Câmara de Combate à Corrupção do MPF, subprocurador-geral da República Alexandre Camanho, defendeu o uso da inteligência e do compartilhamento de informações como pilares para o enfrentamento das organizações criminosas. Ele afirmou: “A integração institucional e a asfixia financeira do crime organizado passam a ser exigências permanentes na rotina de trabalho dos integrantes do Gaeco e das Câmaras de Coordenação”.

Lei Antifacção e instrumentos internacionais

Também compondo a mesa de abertura, a secretária de Cooperação Internacional do MPF, Anamara Osório, afirmou que a Lei Antifacção dialoga com instrumentos internacionais de combate ao crime organizado. Segundo o material, a criminalidade contemporânea possui estrutura transnacional, envolvendo agentes no exterior, uso do sistema financeiro internacional e criptoativos, o que exigiria trabalho integrado entre países.

“Trata-se de construir uma legislação brasileira que seja compatível, interoperável e capaz de conversar com sistemas jurídicos dos nossos parceiros. Essa é uma das grandes contribuições que podemos esperar de uma legislação moderna”, declarou Osório.

Programação do seminário

O seminário “Lei Antifacção e os Novos Instrumentos de Combate ao Crime Organizado” reuniu especialistas em seis painéis temáticos, com foco nos impactos operacionais e jurídicos da nova legislação. De acordo com a programação descrita, os debates trataram das alterações nos Códigos Penal e de Processo Penal, análise de novos tipos penais e fluxo das investigações, além de estratégias de descapitalização patrimonial.

O encontro também abordou ações de compliance, parcerias institucionais e mecanismos de cooperação internacional para o combate transnacional ao crime organizado.

Veja mais fotos do evento no Flickr do MPF.